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Bancos globais mantêm silêncio sobre laços com projeto na Amazônia contestado por indígenas
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Instituições financeiras globais como o banco suíço UBS (Union Bank of Switzerland) e as empresas dos EUA Morgan Stanley, Rockefeller Capital Management e Goldman Sachs divulgaram possuir ou gerenciar ações na Brasil Potash, a empresa canadense por trás de um projeto de mineração em Autazes, no estado do Amazonas, no Brasil, que está sendo contestado por comunidades indígenas e pelo Ministério Público Federal (MPF).
Os dados foram revisados pela Repórter Brasil na plataforma de inteligência de mercado Fintel, que compila informações arquivadas na Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC). Esses registros mostram participações acionárias divulgadas por bancos e gestores de ativos e podem refletir tanto os investimentos das instituições quanto os ativos dos clientes sob sua gestão. De acordo com dados de fevereiro de 2026, que cobrem o último trimestre de 2025, pelo menos 28 instituições financeiras possuíam ou gerenciavam ações na Brasil Potash.
Em Autazes, a Brasil Potash espera garantir, este ano, o financiamento necessário para construir um complexo de extração de potássio. O potássio é um mineral usado na produção de fertilizantes. Além de uma mina subterrânea, o projeto inclui uma planta industrial, uma estrada de acesso, linhas de transmissão de energia e um porto no Rio Madeira. A empresa estima uma produção inicial de até 2,4 milhões de toneladas por ano, potencialmente abastecendo 20% da demanda de potássio do Brasil. Atualmente, o Brasil é o maior importador de fertilizantes do mundo.
A entrada para a futura mina da Brasil Potash fica a cerca de 2 quilômetros da vila Soares, uma comunidade indígena Mura. Desde 2003, os Mura buscam o reconhecimento formal do território pela Funai (Fundação Nacional do Índio). Outras terras indígenas Mura que foram demarcadas ou estão em processo de demarcação – como os Territórios Indígenas Jauary e Paracuhuba – ficam a menos de 8 quilômetros da área do projeto e podem ser afetadas pelas operações de mineração subterrânea, segundo o MPF.
Desde 2016, procuradores federais entraram com ações judiciais contra a Potássio do Brasil, subsidiária local da Brasil Potash. O MPF questiona a legalidade da licença ambiental do projeto e da Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI) com as comunidades indígenas, conforme exigido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que está em vigor na legislação brasileira desde 2003. Em outubro de 2025, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) rejeitou os recursos apresentados pelo MPF, abrindo efetivamente caminho para o início da construção em Autazes. O MPF está apelando dessa decisão.
"Se as empresas possuem ações na BrasilPotash, elas têm um relacionamento comercial. Ao possuir ações, elas viabilizam o projeto/negócio e também contribuem para a legitimidade e reputação do projeto/negócio," disse Julia Büsser, gerente do programa Amazônia da Voices, uma organização suíça que defende os direitos dos povos indígenas e minorias. Na visão de Büsser, mesmo que a responsabilidade não seja a mesma que a responsabilidade legal e mesmo sem um controle majoritário, "existe a obrigação de usar oportunidades para exercer influência. Se a influência não for possível, o desinvestimento deve ser considerado como último recurso."
A corrida pelo potássio em Autazes começou em 2009, quando o governo federal do Brasil concedeu as primeiras licenças de exploração mineral para a Potássio do Brasil. Em 2010, a empresa iniciou a primeira perfuração exploratória em Autazes.
Os moradores Mura da vila Soares afirmam que uma consulta realizada pela Potássio do Brasil excluiu membros da comunidade mais próximos ao projeto (Foto: Mariana Greif/Repórter Brasil)
A disputa foi parar nos tribunais em 2016, quando o MPF moveu uma ação civil pública contra a Potássio do Brasil, o Ipaam (Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas), o Departamento Nacional de Produção Mineral (extinto em 2017 e substituído pela Agência Nacional de Mineração) e a Funai. Na ação judicial, os procuradores federais afirmam que a Potássio do Brasil iniciou estudos na área sem consultar as comunidades Mura.
O MPF argumenta também que, por afetar comunidades indígenas, a autoridade responsável pela licença ambiental deveria ser o Ibama – órgão ambiental federal do Brasil – e não a agência estadual. Em 2017, a licença do projeto foi suspensa até a consulta com as comunidades Mura potencialmente afetadas.