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Análise: Salim Mattar, típico “liberal” brasileiro, vive de subsídios do governo

A saída de dois secretários do Ministério da Economia, Salim Mattar, de Desestatização, e Paulo Uebel, da Desburocratização, voltaram a esquentar o clima em Brasília. Desde que sentiu o golpe da prisão de Fabrício Queiroz, o “Poderoso Checão”, Jair Bolsonaro resolveu seguir os conselhos de auxiliares, controlou seus ímpetos mais primitivos e deixou de produzir uma crise por dia. O silêncio de Bolsonaro me faz lembrar de uma definição de Pelé feita por Romário: “Calado, é um poeta”. O Planalto Central andava meio modorrento, chato, como o programa “Se Joga” da Rede Globo. A “debandada” da terça-feira 11 reanimou o circo (agora são oito os que abandonaram o barco).

FOTO: ALAN TEIXEIRA/DIVULGAÇÃO

A Localiza, fundada pelo ex-secretário de Desestatização, depende de incentivos fiscais

saída de dois secretários do Ministério da Economia, Salim Mattar, de Desestatização, e Paulo Uebel, da Desburocratização, voltaram a esquentar o clima em Brasília. Desde que sentiu o golpe da prisão de Fabrício Queiroz, o “Poderoso Checão”, Jair Bolsonaro resolveu seguir os conselhos de auxiliares, controlou seus ímpetos mais primitivos e deixou de produzir uma crise por dia. O silêncio de Bolsonaro me faz lembrar de uma definição de Pelé feita por Romário: “Calado, é um poeta”. O Planalto Central andava meio modorrento, chato, como o programa “Se Joga” da Rede Globo. A “debandada” da terça-feira 11 reanimou o circo (agora são oito os que abandonaram o barco). O ministro Paulo Guedes reclamou da falta de apoio à agenda liberal e alertou Bolsonaro para o risco de impeachment caso ele dê ouvidos aos supostos desenvolvimentistas do Palácio. O dólar subiu, a Bolsa caiu, os analistas econômicos tiveram taquicardia e o ex-capitão viu-se obrigado a reafirmar, de modo não muito convincente, seu apoio ao “Posto Ipiranga”.

Em entrevista na quarta-feira 12, Mattar justificou o pedido de demissão. O establishment político, afirmou, tem horror às privatizações e, ele, “animal privado” não se entende com a burocracia. Deixemos para lá sua visão tosca, primária, do funcionamento da economia: as estatais, calcula, valem 1 trilhão de reais. Passá-las no cobre resolveria o problema de caixa do governo. O empresário disse ainda preferir dedicar seu tempo à expansão dos institutos liberais Brasil afora. São 120 até agora, nascidos de seu patrocínio. “Vou me dedicar a fazer com que nossos institutos sejam mais virtuais para penetrarmos no interior e disseminar o ideário liberal”.

Alguém nos acuda. O “ideário liberal” de Mattar é bastante peculiar. Sua empresa, a Localiza, como todas as locadoras de veículos, resume o liberalismo à brasileira. Sem as mãos visíveis do papai Estado no volante e no freio, não conseguiriam andar em linha reta por um quilômetro. O kafkiano e injusto sistema tributário do País, que cobra mais de quem tem menos, dá incentivos fiscais em cascata para as empresas do setor. As locadoras compram carros das montadoras sem pagar IPI e ICMS, a desvalorização dos veículos é amortizada nos balanços e, quando não mais se interessam, vendem o produto adquirido com desconto pelo valor de mercado. Por baixo, segundo os cálculos do presidenciável Ciro Gomes, o Estado entrega de bandeja à Localiza e congêneres cerca de 5 bilhões de reais por ano. A seguir, o pedetista explica com mais detalhes a generosidade do Tesouro:

No vídeo a seguir, Mattar pretende explicar o benefício. Não se engane pelo título. Durante a entrevista ao Pânico, o ex-secretário de Desestatização faz de tudo, menos rebater a denúncia de Ciro Gomes. Prefere atacar o presidenciável e fala em “substituição tributária”, um eufemismo semelhante à “elisão fiscal”, termo inventado pelos contadores para tucanar a velha e boa sonegação. Rever os benefícios fiscais das locadoras seria uma boa maneira de aumentar a arrecadação do Estado, além de eliminar uma distorção da concorrência tão criticada pelos liberais. Guedes, o ex-chefe de Mattar, prefere, no entanto, instituir um imposto sobre livros, produtos de “elite”.

O liberalismo à brasileira é uma jabuticaba da qual nascem frutos esquisitos: empresários com os dentes cerrados nas tetas do governo defendem a redução do tamanho do Estado (em geral para os outros), notórios sonegadores reclamam do excesso da carga tributária e herdeiros celebram a meritocracia. Julgam-se eficientes, mas, a exemplo de Mattar, que nada tem a apresentar após um ano e setes meses em Brasília, são incapazes de lidar com realidades complexas.

O empresário, diga-se, não destoa do nível da equipe econômica e do ministro Guedes. Rubem Novaes, demissionário presidente do Banco do Brasil, será lembrado por sua misoginia e despreparo – e pela anuência com a tese de “vender essa porra logo”. Não fica uma única ideia ou inovação nos escaninhos da bicentenária instituição.

Mansueto Almeida trocou o Tesouro por um excelente emprego no BTG Pactual. Os bancos, dado o seu poder desproporcional, há muito prescindem de inteligência e preparo. Preferem outros requisitos de seus colaboradores.

Uebel e Caio Megale (ex-secretário especial) vão sem deixar lembranças. Entraram como páginas em branco e saíram sem ao menos um borrão de tinta nas folhas.

Do Posto Ipiranga original restam, por ora, o secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, que frequenta a mesma congregação terraplanista do chanceler Ernesto Araújo, e o próprio Guedes, o falso profeta, sempre a prometer o paraíso na Terra em um amanhã que nunca chega. À espera do maná, a maioria pobre e remediada é obrigada a pagar a vista a penitência.

Nesta turma, reduzida agora ao mínimo denominador comum, apegada a dogmas antiquados, apartada do mundo, incapaz de apresentar um único projeto coerente, adepta do “terrorismo fiscal”, os mercados e parte da mídia depositam sua confiança. Como os conceitos de República e democracia, o liberalismo é muito mal compreendido nas capitanias hereditárias.